Júlia Côta: uma artesã sem papas na língua

20-09-2019

Há 73 anos que bule no barro. Neta do criador do primeiro galo de Barcelos, a artista é uma das mais renomadas e reconhecidas artesãs portuguesas. Não sabe ler nem escrever, mas assina sempre as suas peças. Todas elas são feitas à mão. Dona de uma incontestável boa disposição, é já comparada ao Cristiano Ronaldo. 

Foto cedida por Júlia Côta
Foto cedida por Júlia Côta

Poucos se podem dar ao luxo de viver na rua a que deram nome. Mas Júlia Côta pode. Na porta setenta e seis da rua com o seu nome encontramos uma placa que não deixa margens para dúvidas. De forma quadrangular e de cor branca, alberga em si a inscrição: "Júlia Côta", acompanhada de um desenho de uma peça de artesanato. Estamos em Manhente, Barcelos.

É no ateliê improvisado, situado no rés-do-chão da habitação, que a encontramos. Não se arranjou para a entrevista, como outros talvez o fizessem. Enverga as 

roupas do trabalho. Salpicadas de tinta - amarelo, vermelho, castanho - assim como o seu inseparável avental azul.

Do lado esquerdo do ateliê vemos uma vitrina com quatro prateleiras. Nelas repousam as peças da artesã. Galos. Juntas de bois. Bandas de música. Coretos. Bonecas. Diabos. Todos eles de vários tamanhos, cores e feitios. Do lado oposto temos a mesa de trabalho da artista. Também ela salpicada de várias cores. Neste momento, é Prazeres quem a usa. É a única filha de Júlia Côta que pretende seguir a arte do artesanato que perdura na família. Prazeres está a concluir a pintura de 2 peças: um São João e um São Pedro.

Sem perturbar a tarefa da filha, Júlia senta-se junto da mesa de trabalho. Começa por nos revelar, com um sorriso no rosto, que desde os 9 anos que mexe no barro para ajudar a mãe. Os célebres pintainhos amarelos com um assobio no rabo foram das primeiras peças que a ajudou concluir. Estes eram depois vendidos na feira semanal de Barcelos juntamente com as restantes peças artesanais que garantiam o sustento da família. "Hoje não nos falta nada, mas a nós faltava-nos tudo (...), muitos foram os dias em que nem um pedaço de pão comi", relembra emocionada.

O manuseamento do barro surgiu na família através de Domingos Côto, pelo qual Júlia nutre uma grande admiração. A peça de loiça tipicamente minhota de fundo preto, com crista vermelha e decorada com corações ao longo do corpo, designada de galo de Barcelos é da sua autoria. "Recordo-me de o ver a trabalhar o barro na roda do oleiro, (...) ele fazia tudo muito bem feito", diz orgulhosamente a neta.

Enquanto ajudava no negócio de família, Júlia ficava cada vez mais ligada ao artesanato e, de 8 irmãos, foi a única que seguiu os passos quer do avô quer da mãe, dando continuidade à arte. Foi na adolescência que Júlia fez as suas primeiras peças. "O que haviam de ser?" questiona com simplicidade e um sorriso no rosto. "Uma galinha dentro de uma cesta e uma canastra recheada de peixes", responde a rir-se.

Dona de uma arte burlesca e sem preocupações com a perfeição, Júlia é das artesãs mais acarinhadas pelos barcelenses. A sua personalidade descontraída e divertida conquista qualquer um. Tem sempre tantas histórias para contar quanto as rugas que possui. Conta-nos agora como criou os filhos. O dinheiro sempre foi algo que não abundou e como mulher do norte que é a artesã decidiu desenrascar-se. Pediu a uma vendedora um caixote de madeira em que se transportavam os paus de sabão rosa. Com a ajuda do pai colocou quatro rodas no caixote bem como um fio para puder ser puxado. "Foi esta a alcofa dos meus filhos", explica divertida.

O mundo do figurado colorido e extravagante começou a ganhar forma quando foi trabalhar com os pais, já depois de casada. Apesar de ir ganhar só 15 tostões à hora, Júlia não hesitou. Despediu-se da fábrica, onde pintava galos, e foi trabalhar com os pais. Desde cedo os pais aperceberam-se do talento de Júlia para moldar o barro. Primeiro, aumentaram-lhe o salário. Depois partilharam os lucros com ela. Acabou por trabalhar sempre com eles até falecerem.

Os diabos são das peças mais vendidas. "Não sei porquê, eles são tão feios", contrapõe às risadas. Certo dia, ainda solteira, a artesã foi ao São Bento da Várzea, em Barcelos, e deparou-se com um diabo dentro de uma capela. "E se eu fizesse uma peça igual a esta?", pensou. Veio com a ideia. Moldou o barro e fez diabos semelhantes ao que viu. Só não eram de bronze e não tinham asas como o original. Júlia pintou-os de preto e de uma rajada vendeu-os todos. Mais tarde, depois de casada, o marido sugeriu-lhe que pintasse os diabos de vermelho. E assim foi. Ainda hoje os diabos que faz seguem a sugestão do marido, entretanto falecido.

Embora os diabos sejam os mais procurados, são as bonecas que mais gosta de fazer. A artesã não sabe explicar porquê, mas é evidente. As bonecas são a representação da mulher do norte - de Júlia. Essas mulheres que andam de mãos nas ancas. Que olham de frente. Que não tem papas na língua. Que pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. "É das peças que mais lhe custa vender", admite Prazeres ao fazer uma pausa na pintura do São Pedro.

Apesar de ser uma pessoa felicíssima, não saber ler nem escrever deixa Júlia desanimada. Aprendeu com a ajuda de uma amiga a fazer as iniciais do seu nome e apelido. E é com elas que assina as peças. "As letras são malfeitas, mas os fregueses não querem outra coisa", garante-nos com simplicidade. Em tempos, o fornecedor dos seus cartões de visita ofereceu-lhe um carimbo com o seu nome. Mas sempre exigiu que nunca o usasse nas peças que lhe ia vender. "Como ele não quis também todos os outros não quiseram", afiança. Por vezes, esquece-se de rubricar as peças e garante que os clientes não as levam senão desenhar as duas letras: JC.

Não usa moldes para elaborar as peças. Tudo é feito à mão e na hora. Por mais que tente não há uma peça igual à outra, quer no formato quer nas cores que lhe põe. Por esse motivo, há peças que não correspondem às expetativas da artesã. "Parto-as logo!", admite elevando o tom de voz. Com a modéstia que lhe é caraterística, Júlia assume que muitas das peças ficam feias depois de concluídas. "Mas as mais feias são as que eu vendo mais depressa", diz entre gargalhadas.

Mulher de emoções fáceis, Júlia lamenta não ver na família quem lhe herde a arte e quem imortalize em barro o nome dos "Côtos", à exceção de Prazeres. "Só esta é que vai continuar" revela-nos com orgulho apontando para a filha Prazeres, que está prestes a terminar a pintura das peças que havia iniciado. Júlia gostava que mais filhos continuassem a arte, mas reconhece que nenhum tem jeito para moldar o barro. "Sabe! Para moldar o barro é preciso ter as mãos ligeiras, não se pode fincar as mãos na peça senão esmigalha-se a matéria-prima".

Concluída a pintura do São João e do São Pedro, Prazeres aproveita para nos falar sobre a mãe. Garante que toda a gente gosta dela, porque é genuína. Não tem papas na língua: tudo o que pensa diz. É divertida. Mas, como qualquer pessoa tem as suas fragilidades. A ausência do marido é das coisas que mais a entristece, confessa-nos a filha. E nós concordamos. Ao longo de toda a conversa falou imensas vezes do marido revelando que o seu maior desejo era tê-lo a seu lado.

Recentemente, Júlia foi a Lisboa a convite do chefe de cozinha José Avillez. Na capital, como a qualquer sítio onde vai, deixou transparecer a sua genuinidade. Quando saía do Hotel Pestana foi abordada por um conjunto de jornalistas. Sem papas na língua, Júlia dirigiu-se a eles e disse: "Nem que fosse o Cristiano Ronaldo, minha gente". E desde então muitos abordam-na garantindo: "Temos Cristiano Ronaldo no futebol e Júlia Côta no artesanato".

| Trabalho realizado em maio de 2018

Share
Crie o seu site grátis! Este site foi criado com a Webnode. Crie o seu gratuitamente agora! Comece agora